Reflexão sobre os ciclos emocionais da vida humana. A psicóloga Sandra Amorim partilha pensamento sobre como honrar todas as estações da alma.
Vivemos numa época obcecada pela primavera.
Primavera na carreira. Primavera nos relacionamentos. Primavera emocional constante — flores desabrochando, sol radiante, energia em alta, produtividade a todo o vapor. As redes sociais mostram-nos vidas sempre em flor, e a mensagem subliminar é clara: deves estar sempre bem.
Sempre grato. Sempre motivado. Sempre em crescimento.
Mas e se eu lhe disser que esta exigência de primavera perpétua é uma das maiores fontes de sofrimento emocional dos nossos dias?
Não me interprete mal: não tenho nada contra a gratidão, a resiliência ou o optimismo. Mas há algo de profundamente violento em negar a legitimidade de todas as outras estações da experiência humana.
Porque a verdade — essa verdade que raramente se diz em voz alta — é que a vida tem inverno. E outono. E dias cinzentos onde a alma parece despida de cor, onde o cansaço não tem nome e a tristeza não tem causa identificável.
E está tudo bem.
Está mais do que bem. É humano.
Aqui, preciso de fazer uma distinção importante enquanto psicóloga: sentir-se em "inverno interior" não é o mesmo que estar deprimido(a) clinicamente. A depressão é uma perturbação que requer diagnóstico e intervenção profissional. O inverno emocional de que falo é outra coisa — é um estado transitório, um momento de recolhimento, uma fase onde a energia está baixa e a alma pede silêncio.
É aquele período em que:
É como se o corpo emocional dissesse: "Preciso de parar. Preciso de me recolher. Preciso de não estar em flor agora."
E sabe o que é extraordinário? A natureza sempre soube disto.

As árvores não se envergonham do outono. Não tentam segurar as folhas caídas com fita-cola, fingindo que ainda é Verão. Elas deixam cair. Deixam morrer o que precisa de morrer para que, mais tarde, nova vida possa emergir.
O solo precisa de descansar entre colheitas. Os ursos hibernam. O mar tem marés baixas. Tudo na natureza respeita ciclos.
Tudo, excepto nós, humanos modernos.
Nós queremos estar sempre "on". Sempre disponíveis. Sempre em processo de auto-optimização. Sempre a subir a montanha, sem nunca permitir que o corpo descanse no vale.
E depois perguntamo-nos porque é que estamos exaustos. Porque é que sentimos burnout. Porque é que, apesar de todas as conquistas externas, há um vazio interno que não se preenche com mais posts motivacionais.
Honrar o inverno da alma é um acto radical de auto-compaixão numa cultura que vende primavera compulsiva.
É dizer:
Isto não é desistir. É integrar.
Integrar significa compreender que pode estar triste e grato simultaneamente. Que pode precisar de recolhimento e ainda assim ter esperança no futuro. Que pode atravessar uma fase difícil e isso não anula todo o seu valor ou o seu caminho percorrido.
Carl Jung, psicanalista suíço, dizia algo que sempre me marcou profundamente:
"Não há luz sem sombra, e não há plenitude psíquica sem imperfeição."
As nossas sombras — os momentos de inverno, as fases de recolhimento, os dias cinzentos — não são falhas de carácter. São parte integrante de uma vida plena, complexa, humana.
Quando negamos sistematicamente o direito ao inverno emocional, algo perigoso acontece:
Quantas pessoas conhece que "de repente" adoeceram? Que "do nada" entraram em burnout? Que "sem aviso" viram o relacionamento desmoronar?
Raramente é "de repente". É a acumulação de invernos negados.

Se sente que está numa fase de inverno emocional, aqui ficam alguns convites gentis:
Apenas reconhecer — "Estou num inverno interior" — já traz alívio. Não está "mal". Não "falhou". Está numa estação diferente, e isso é temporário.
Permita-se fazer menos. Cancele compromissos não-essenciais. O descanso não precisa de ser merecido. Já merece pelo simples facto de existir.
Partilhar que está num momento difícil com alguém de confiança — um amigo, familiar, terapeuta — não é fardo. É honestidade. E honestidade gera conexão verdadeira.
Agora, uma nota importante: se o seu "inverno" já dura meses, se os sintomas incluem desespero, pensamentos autodestrutivos, incapacidade de funcionar no dia-a-dia, então já não é apenas uma estação natural — pode ser depressão clínica, e isso requer acompanhamento profissional.
Não há vergonha nenhuma em procurar ajuda. Nenhuma. A psicoterapia é precisamente isso: um espaço seguro para atravessar as estações mais duras com alguém ao seu lado, alguém que conhece o mapa emocional e pode ajudá-lo(a) a não se perder.
Pode saber mais sobre como funciona a terapia aqui na Ordem dos Psicólogos Portugueses ou consultar evidência científica sobre eficácia da psicoterapia.

Há uma beleza particular no inverno. Não a beleza óbvia e exuberante da primavera, mas uma beleza mais subtil — a beleza do silêncio, da pausa, do recolhimento necessário.
As árvores não morrem no inverno. Preparam-se.
As sementes não desaparecem sob a terra. Transformam-se.
E nós também. Nas nossas estações interiores mais frias, algo importante está a acontecer sob a superfície. Algo que não vemos, mas que é essencial para o próximo ciclo de florescimento.
Então, se hoje está em inverno, permita-se. Não lute contra a estação. Não se culpe pela ausência de flores. Apenas esteja. Com compaixão. Com paciência. Com a confiança tranquila de que a primavera virá — não porque a forçou, mas porque é a natureza das coisas.
E quando ela chegar, será ainda mais doce por ter honrado o inverno.
Deixo-lhe com esta pergunta, que pode não ter resposta imediata (e está tudo bem):
Que permissões precisa de dar a si mesmo(a) para honrar a estação emocional em que se encontra neste momento?
Pode ser tão simples como: "Permito-me estar cansado(a)." Ou: "Permito-me não ter todas as respostas agora."
Faça essa lista mental. E, se quiser, partilhe-a com alguém de confiança. Às vezes, dizer em voz alta é o primeiro passo para tornar real.
Este artigo faz parte da categoria "Reflexões e Humanidades" do blog, um espaço onde partilho pensamentos mais pessoais e filosóficos sobre a experiência humana. Aqui, não encontrará apenas técnicas ou diagnósticos — encontrará uma companhia silenciosa para os dias em que a alma precisa de ser vista, não consertada.
Sandra Amorim é psicóloga clínica (OPP nº 27850), psicoterapeuta em formação e, acima de tudo, alguém que também atravessa estações. Trabalha com adultos que procuram não apenas resolver problemas, mas compreender-se profundamente — e aprender a habitar todas as estações da sua humanidade com compaixão.
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